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23 de março de 2013

Mero, o Senhor das Pedras – Rafael Ferreira

O mero frequenta locais escuros como tocas submarinas, fundo de pedras, locais de naufrágios e até mesmo plataformas, como na foto. Crédito: Athila Bertonchi
Para um desavisado leitor, o título de nossa matéria pode soar como o título de um filme de fantasia épica, com uma excitante trama, na veia de "Senhor dos Anéis" ou "Eragon". Infelizmente, a trama deste filme é mundana e bem conhecida: espécie animal, antes abundante, graças à caça (no caso, pesca) predatória hoje se encontra em risco de desaparecer. O protagonista da vez é o mero (Epinephelus itajara).

Nosso astro foi batizado Epinephelus itajara por um pesquisador alemão que esteve no Brasil no século XIX, segundo uma denominação tupi-guarani "senhor das pedras" ("ita", pedras; "jara", senhor). O nome é referência ao alto nível ocupado pelos meros na cadeia alimentar marinha e por seu hábito de se abrigar em lugares escuros, como grandes tocas entre as rochas.

O mero é um peixe marinho da família Serranidae, que habita águas tropicais e subtropicais do oceano Atlântico, podendo ser encontrado nas Bahamas e na maior parte do Caribe. Nos EUA, nos estados da Florida, Nova Inglaterra e Massachusetts. No leste do Oceano Atlântico, ocorre entre Congo e Senegal. No Brasil, praticamente ao longo de todo o litoral. É uma espécie que habita zonas de estuários e áreas costeiras (até 100 m de profundidade), isto é, em manguezais, costões rochosos, próximos de naufrágios, pilares de pontes e parcéis.

O E. itajara, uma das maiores espécies de peixes marinhos, pode chegar a pesar de 250 kg a mais de 400 kg e medir até quase 3 metros. Estes gigantes estão situados bem alto na cadeia alimentar: seu cardápio consiste, principalmente, de crustáceos, lagostas e caranguejos. Partes de polvos, tartarugas e outros peixes também. Quando jovens alimentam-se de camarões, caranguejos e bagres marinhos. Longevos, vivem, em média, por 30 anos e podem alcançar 40 anos.

As características biológicas desta espécie a tornam muito vulnerável à pesca: possui taxa de crescimento lento e maturam tardiamente; atinge tamanhos impressionantes que lhe valem alto valor comercial (sua carne é muito desejada) e desportivo, quando capturados por caçadores submarinos; e, por fim, agrega-se para a reprodução – até 100, às vezes mais, indivíduos agregam-se para desovar em momentos e locais específicos.

Por anos, o mero vem recebendo atenção de pesquisadores em todo o oceano Atlântico em função do declínio de suas populações. Classificado como criticamente ameaçado na lista da IUCN, a espécie é protegida da pesca há mais de dez anos em todo o Golfo do México (que inclui litoral norte-americano). No Brasil, em 2002, esta espécie recebeu proteção através de uma proibição da captura, editada pelo IBAMA na Portaria nº 121 de 20 de setembro de 2002, prorrogada por mais por mais cinco anos na Portaria 42/2007. Na iniciativa privada, (ONGs) como o Projeto Meros do Brasil, se colocam  a favor da conservação do mero.

O homem, com sua ação predatória, novamente fica com o papel de vilão da trama. Mas, como sempre, também lhe cabe o papel do resgate heroico. Será que chegará a tempo de salvar o Senhor das Pedras?

http://www.oeco.com.br/fauna-e-flora/27013-mero-o-senhor-das-pedras

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26 de janeiro de 2013

Anta-brasileira: um gênio solitário e incompreendido – Rafael Ferreira

O nado tranquilo da anta-brasileira. Foto: VenturaB./Flickr

Talvez pelo seu tamanho avantajado, visual peculiar (corpo de porco, cascos de boi, orelhas de cavalo e focinho de elefante) e por ser um pouco desastrada, a anta-brasileira (Tapirus terrestris) recebeu no Brasil uma fama de ter pouca inteligência. Quem nunca ouviu a frase – ou até foi alvo dela – “Você é uma anta”? Se engana, no entanto, quem pensa assim. Ao contrário, com uma enorme concentração de neurônios em seu cérebro, a anta tem memória comparável a de um elefante. É um animal extremamente inteligente.
Alcançando até 1,20 m de altura, 2 m de comprimento e 300kg, a tapir – como também é conhecida – é o maior mamífero terrestre nativo da América do Sul. Seu habitat são as florestas e campos da América do Sul, do leste da Colômbia até o norte da Argentina e Paraguai. Aqui, são mais encontradas nas áreas próximas aos rios Paraná e Paraguai, no Pantanal, na bacia do rio da Prata e na bacia do rio Amazonas. Sempre se mantém próximas aos rios porque, excelente nadadora, é neles onde busca refúgio de predadores, como onças-pintadas e onças-pardas. Se não há água, corre abrindo caminho pela mata fechada, derrubando desastradamente pequenas árvores e arbustos que aparecem pela frente.
Com todo este tamanho, natural que tudo na anta seja excessivo: um herbívoro de hábitos noturnos, ela chega a ingerir de oito a nove quilos por dia de uma grande variedade de gramíneas, folhas, sementes, frutos e outros tipos de vegetação; animal tipicamente solitário, precisa de extensas áreas para viver, território que demarca com a urina.
Para as fêmeas, o período de gestação dura aproximadamente de 390 a 400 dias (13 meses!), com intervalo entre concepções de cerca de 24 meses, nascendo apenas um filhote por vez. E muito ainda há para se descobrir sobre esse animal, trabalho empreendido por entidades como o Tapir Specialist Group, que se dedica à sua preservação e estudo.
Pela lista vermelha da IUCN, a Tapirus terrestris é classificada como vulnerável. Embora não seja considerado animal ameaçado de extinção pelo IBAMA, a anta perde áreas de habitat com a devastação de florestas e matas, pela competição com áreas de pecuária e com a caça ilegal para alimentação e esporte. O ciclo reprodutivo lento faz com que populações reduzidas por quaisquer razões tenham poucas chances de reestabelecimento. A população de antas sofreu uma redução de cerca de 30% nas últimas 3 décadas e, estudos sugerem que, nada sendo feito, o decréscimo poderá continuar pelas próximas três. Uma perspectiva alarmante, se considerada a importância do animal para o bioma: como uma verdadeira “jardineira das florestas”, seu processo metabólico permite, por meio de suas fezes, a dispersão natural de sementes pelo terreno, tornando fértil o solo das longas distâncias que percorre.
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