No
caminho para o oeste do estado de Santa Catarina a paisagem é aflitiva.
O que se vê é um exército de pinus, cultura invasora que toma conta de
quase todo o trajeto até a Argentina. Estão por toda parte como
protagonistas de um modelo de produção que está matando as culturas de
subsistência. Afinal, para os pequenos produtores, é muito mais seguro
aceitar o plantio de pinus, com cliente fixo, do que apostar na produção
de comida, sujeita a toda a sorte de intempéries. Na região de Lages,
que já foi um celeiro de madeira nobre – totalmente devastado – a
fumaça intermitente anuncia o reino das papeleiras. Pelos caminhos,
rareiam as araucárias, árvores típicas da região serrana, que até pouco
tempo compunham, indefectíveis, a paisagem. Como estão quase em
extinção, uma lei obriga quem tem uma araucária no terreno, a cuidar e
nunca cortar. Por conta disso, entendendo que a lei “atrapalha” a vida e
o uso dos terrenos, os agricultores estão arrancando as mudas tão logo
elas brotam, para evitar ficar com a terra presa. E, assim, as mães dos
pinhões estão cada vez mais difíceis de encontrar.
Talvez
por conta dessa triste realidade que virar a BR 282 à esquerda, no rumo
de Urubici, se transforme num passeio de tirar o fôlego. Tão logo nos
afastamos da estrada principal já começam a aparecer as araucárias.
Grandes, pequenas, médias, arvores bebês. É uma profusão. Por toda a
extensão vão pipocando, soberanas, provocando vagas de emoção. Ali, elas
estão protegidas e, ao que parece, são amadas. Entre bichos e gentes,
as grandes árvores se balançam, altaneiras, esperando que chegue a hora
de engravidar e gerar milhares de pinhões, uma semente com sabor de
serra, de vento frio.
Andando
mais um pouco, passamos a acolhedora cidade de Urubici e seguimos em
direção ao Parque Nacional São Joaquim, um refúgio da natureza, criado
para proteger o ecossistema da região da sanha gananciosa dos donos de
terra. A ideia de criar o parque como uma unidade de conservação surgiu
no ano de 1957, quando a exploração de madeira chegava às raias do
absurdo, devastando toda a cultura nativa. A luta foi grande mas, em
1961, uma lei federal tornava real o parque, conservando assim 49.300
hectares de terra com toda a vegetação típica da região.
Situado
na borda oriental da Serra Geral, cuja formação data de mais de 120
milhões de anos, o Parque São Joaquim abrange parte dos municípios de
Urubici, Bom Jardim da Serra, Orleans e Grão Pará. Naquela imensidão
verde se abrigam mananciais de fundamental importância para a vida do
estado, como a nascente do Rio Pelotas, localizada bem no alto do Morro
da Igreja. Ali, além de a gente se estupefar com a beleza das formações
rochosas pode-se ver a famosa Pedra Furada, uma lapidação primorosa
revelada pela natureza. No início do outono, a vista é deslumbrante, as
cores são vivas e o vento forte parece falar ao ouvido, contando de
passadas eras.
O
parque mistura vegetação da mata Atlântica com a da mata das
Araucárias, além de apresentar campos de altitude. A fauna abriga
espécies pouco vistas como o leão-baio (puma), o quati, a cutia,o
urubu-rei e uma série de pequenas aves como o pedreiro e o
garimpeirinho. Também por ali voejam as gralhas azuis, responsáveis pela
disseminação da semente da araucária.
O
caminho até o Morro da Igreja nos leva para um lugar bem distante, no
passado, como quando a floresta de araucárias cobria mais de 220 mil
quilômetros entre o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ali,
parece que tudo ainda está intocado. Apenas a base do Cindacta, bem no
topo do morro, quebra um pouco o clima , embora evoque outros mistérios
como a vida extraterrena. Em dias de semana, com poucos turistas, é
possível sentar de frente para o abismo e ficar a cismar. Uma
experiência sem igual.
Na
volta para Urubici, impossível deixar de ver o “véu de noiva”, uma
cascata de tamanho médio, de profunda beleza. Em volta dela, dezenas de
araucárias bebês iniciam sua jornada de séculos, afinal elas podem viver
mais de 500 anos. É como uma bênção. Nessa hora, tudo o que se pode
fazer é agradecer por um dia, alguém ter travado essa luta, garantindo
espaço de liberdade e de vida para a “mãe dos pinhões”, chamada de curi
pelos indígenas da região. Triste pensar que é justamente o homem, o
responsável pela sua destruição. Ainda assim, saímos de Urubici com o
coração aos saltos, sabendo que enquanto existir o parque São Joaquim a
grande árvore serrana sobreviverá.
Enquanto
isso, na vastidão do estado, as pequenas mudas das centenárias árvores
que conseguem vingar sem serem arrancadas, vão resistindo, afogadas pelo
pinus. Estão por ali, solitárias, esperando pelo voo da gralha, que
semeará, até quando ela mesma não mais existir…
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