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16 de outubro de 2013

Floresta em pé, com toda a biodiversidade e conservação que garante, “rende” R$ 4.900,00/hectare/ano

O produtor agroecológico Guaraci Diniz e a área reflorestada em seu sítio, ao fundo.
Floresta em pé é valiosa.
FOTO: MÁRCIO FERNANDES/AE

Já um hectare de pasto? Dá “prejuízo” de R$ 20.000,00/hectare/ano. Esses números serão apresentados durante o Encontro Paulista de Biodiversidade, na Secretaria do Meio Ambiente, na capital, entre hoje, dia 16, e amanhã, dia 17. Eis mais conclusões que serão apresentadas no evento e que têm tudo a ver não só com a preservação da mata nativa, mas também com uma agricultura de bases ecológicas, ou agroecologia:

Um hectare de pasto abriga apenas uma espécie de planta – a própria gramínea que compõe o pasto. A mesma área de mata nativa, há sete anos em processo de recuperação, contém 55 tipos de espécies vegetais. Uma floresta de 25 anos abriga 68 espécies e, uma de 75 anos, 100 espécies. O que dizer, então, de uma floresta de 200 anos? Abriga nada menos do que 130 espécies diferentes de plantas.
Parte desses números foi obtida no Sítio Duas Cachoeiras, em Amparo (SP), pertencente ao produtor agroecológico Guaraci Maria Diniz Jr.

Ali, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Laboratório de Engenharia Ecológica e Informática Aplicada da Unicamp enfronharam-se tanto na mata nativa quanto na recomposta – nos 30 hectares do sítio, 80% são cobertos por floresta replantada ou original – para tentar comparar a biodiversidade florestal num sistema agroecológico de produção e num sistema convencional de cultivo – no caso, a pastagem.

Outros números obtidos pelos pesquisadores conferem valores de referência monetária ao pasto, à mata nativa e ao sistema agroecológico de produção de alimentos que é praticado no sítio, levando-se em conta todos os benefícios ao entorno – como produção e preservação de água de qualidade, conforto térmico, prevenção de erosões, manutenção da biodiversidade, biomassa e sequestro de CO2.

Segundo Guaraci Diniz, o “saldo final” de serviços prestados, por exemplo, pela floresta de 75 anos é de R$ 4.900,00 por hectare/ano. Já em uma área de pasto, o mesmo cálculo detectou um prejuízo de R$ 20.000,00/hectare/ano. Pelo critério de benefícios ambientais, o pasto só faz o produtor perder dinheiro. “Se o agricultor recebesse para preservar, teria de receber do Estado, como pagamento por serviços ambientais, quase R$ 5.000,00/hectare/ano; já o dono do pasto, pelo prejuízo ambiental que acarreta, teria de pagar uma multa anual de R$ 20.000,00/hectare”, compara Diniz Jr.

Esses e outros números surpreendentes sobre os benefícios da biodiversidade em um sistema agroecológico de produção serão apresentados por Diniz Jr. no dia 17 de outubro, quinta-feira, a partir das 13h30 até as 17h, no painel “Medindo a sustentabilidade na pequena propriedade rural”, no 5º Encontro Paulista de Biodiversidade, evento promovido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Utilizando a metodologia de análise emergética, adotada pelo Leia, da Unicamp, será apresentado, neste painel, como a sustentabilidade pode ser entendida e medida em uma  propriedade rural e também como a utilização de sistemas agroflorestais tem contribuído para a conservação da biodiversidade em um sistema de produção familiar.

Além de Guaraci Maria Diniz Jr., comporão a mesa o professor Enrique Ortega, chefe do laboratório da Unicamp; o engenheiro agrônomo Osmar Mosca Diz, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral da Secretaria de Agricultura, e o engenheiro agrônomo e produtor rural Rodrigo Junqueira B. de Campos, da Fazenda São Luís, de Morro Agudo, que trabalha com o sistema agroflorestal desde 1997.

SERVIÇO: O 5º Encontro Paulista de Biodiversidade vai ocorrer nos dias 16 e 17 de outubro (quarta e quinta-feira), das 8h às 17h, no Auditório Augusto Ruschi, na Av. Professor Frederico Hermann Jr., 345, São Paulo, SP. Outros painéis a serem realizados são “Nova resolução sobre restauração ecológica”; “Ecossistemas ameaçados e hábitats críticos”; “Indicadores de sustentabilidade” e, por fim, o acima citado “Medindo a sustentabilidade da pequena propriedade rural”.

A programação completa pode ser obtida no site da Secretaria do Meio Ambiente (www.ambiente.sp.gov.br), no link “acontece/eventos”. 

http://blogs.estadao.com.br/alimentos-organicos/floresta-em-pe-com-toda-a-biodiversidade-e-conservacao-que-garante-rende-r-4-90000hectareano/


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18 de janeiro de 2013

Artigo discute relações entre agricultura orgânica e agroecologia e desafios atuais em torno dos princípios da agroecologia – Cristina Tordin


(foto: sistema ecológico - arquivo Embrapa)

Artigo discute relações entre agricultura orgânica e agroecologia e desafios atuais em torno dos princípios da agroecologia

                                                                                               Cristina Tordin*
                                                                                                                                    17.1.2013

Lucimar Abreu, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP), Stéphane Bellon, pesquisador do Inra (França), Alfio Brandenburg, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Guillame Olliver e Claire Lamine, pesquisadores do Inra, Moacir Darolt, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Pascal Aventurier, Engenheiro do Inra, publicaram um artigo científico na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, de julho a dezembro de 2012, pela Editora UFPR, que trata das relações entre agricultura orgânica e agroecologia.
O artigo denominado "A relação entre agricultura orgânica e agroecologia e os desafios atuais em torno dos princípios da agroecologia" busca qualificar o debate técnico científico atual que coloca os conceitos de agricultura orgânica e agroecologia em polos divergentes. Essa visão científica simplificadora da realidade social é evidenciada no debate técnico científico expressa por algumas lideranças do universo da agroecologia - ongs e de alguns autores, conforme mostramos no artigo.
Conforme a pesquisadora Lucimar Abreu, “a ruptura entre agricultura orgânica e agroecologia dificulta a possibilidade de colocar em prática uma nova concepção de desenvolvimento rural, por meio de políticas públicas diferenciadas que visam o fortalecimento do universo dos produtores familiares e não simplesmente de grupos focais. E preciso relacioná-las às diferentes formas sociais empíricas de produção e reprodução social, sejam elas inspiradas nos princípios da agricultura orgânica ou da agroecologia. E levar em conta a história e a trajetória da transição e dos agricultores, suas aspirações sociais e econômicas e analisar o conteúdo prático destas formas alternativas de produção”.
“Nesse artigo, exploramos a relação entre agroecologia e agricultura orgânica, enfatizam os autores. O debate na comunidade científica em alguns países e a análise das posições ou discursos de pesquisadores e artigos apontam para distintas combinações, trocas e interações entre a agricultura orgânica e agroecologia.
“Nesse sentido, primeiramente, com base na revisão de literatura, mostramos distintas interações entre esses estilos de agricultura. Além disto, analisamos as controvérsias das agriculturas em foco, bem como apresentamos uma síntese de dois estudos de caso para ilustrar a aplicação prática de princípios da agroecologia, avaliando práticas e valores éticos, relacionando-as com as lógicas familiares ou patronais de funcionamento da produção”.
Os autores concluíram que as relações entre os estilos de agricultura não podem ser reduzidas a uma simples oposição entre um campo científico e um domínio prático. Diversos elementos devem ser tomados em conta, entre os quais o grau de integração sociocultural (valores) à sociedade, as práticas e a inserção no mercado. Estudos no território brasileiro exemplificam a diversidade de relações existentes, seja inclusiva ou exclusiva, observando-se uma fluidez entre conceitos de agroecologia e agricultura orgânica.
Enquanto a agricultura orgânica tem suas raízes na ciência do solo, a agroecologia sustenta seus princípios na ecologia. A agroecologia privilegia, num primeiro momento, as dimensões agronômica e ecológica e, em seguida, as dimensões sociológica e política.
Nesse sentido, a agroecologia entendida como um estilo de agricultura pode ser mais ou menos sustentável quando é capaz de atender, de maneira integrada, aos seguintes princípios: baixa dependência de inputs externos e reciclagem interna, uso de recursos naturais renováveis localmente, mínimo de impacto adverso ao meio ambiente, manutenção em longo prazo da capacidade produtiva, preservação da diversidade biológica e cultural, utilização do conhecimento e da cultura da população local e satisfação das necessidades humanas de alimentos e renda.

Por outro lado, a agricultura orgânica sustenta-se, segundo a Internacional Federation for Organic Agriculture Movements (Ifoam), em princípios de equidade, saúde e justiça e em paradigmas da ciência do solo. É entendida por autores de forma crítica, centrada numa visão minimalista, na medida em que ela é vista como substituição simples de insumos, em detrimento do redesenho dos sistemas agrícolas, e praticada segundo a lógica organizacional da moderna agricultura convencional. Apesar dessas críticas, a conversão para a agricultura orgânica é frequentemente lembrada por esses autores para ilustrar as perspectivas de transição agroecológica.

Esse artigo é fruto de uma análise realizada tendo em conta a perspectiva cruzada de duas disciplinas – sociologia e agronomia – cuja característica marcante é a abordagem multidisciplinar e interdisciplinar desta problemática.

Apesar de a agricultura orgânica possuir potencial para oferecer alimentos ecologicamente corretos e preservar o meio ambiente e as paisagens, alguns estudos têm mostrado que unidades de produção orgânicas, certificadas ou não, adotam práticas que não respeitam os princípios da agricultura orgânica. Esta tendência tem sido chamada de “convencionalização” da agricultura orgânica. Argumenta-se que para fortalecer a agricultura orgânica e potencializar seus benefícios teria que se avaliar a sua heterogeneidade e ir além da regulamentação. O argumento principal aponta para a necessidade de analisar empiricamente se a agricultura orgânica está cumprindo ou não com os princípios e valores defendidos pela Ifoam e se recomenda a adoção de indicadores que tenham capacidade de capturar o conjunto de causas e efeitos decorrentes das diferentes práticas adotadas.

O trabalho consistiu em identificar e caracterizar os sistemas de produção de um grupo de agricultores familiares por meio da análise do funcionamento e da gestão de seus respectivos sistemas produtivos, do ponto de vista dos princípios da agricultura agroecológica e ecológica. Portanto, verificou-se a aplicação de princípios da agricultura orgânica recomendados pela Ifoam e os princípios da agroecologia recomendados pelo movimento ecológico sul-americano, com foco na agrobiodiversidade, na reciclagem de material e nos aspectos socioeconômicos do processo de conversão agroecológica.

A agricultura orgânica tem um papel importante como agricultura de base ecológica, devido à sua história (quase um século), aos seus princípios para a ação (conjunto de regras) e práticas codificadas (regulamentos), aos seus controles e certificação, à sua crescente importância econômica e à sua identificação pelos consumidores. A agricultura agroecológica tende a reforçar a identidade como um projeto orientado para a ação interdisciplinar, com as suas especialidades oferecendo um conjunto de contribuições importantes para a diversificação de cultivos, serviços para a biodiversidade, justiça social e soberania alimentar. Isso implica em aprofundar as relações já construídas com os movimentos sociais e em buscar convergências benéficas através de uma fértil relação entre a agricultura orgânica e agroecológica. A este respeito, os esforços de investigação contribuem para compreender o redesenho de agroecossistemas sustentáveis. Elas têm um papel importante e expressam novas tendências das políticas da multifuncionalidade da agricultura e aproximação entre produtores e consumidores.

Reforça-se também a premissa de que a análise da agricultura orgânica e da agricultura agroecológica não deve ser tratada de forma polarizada, visto que ambas têm um peso social, ambiental e econômico importante, principalmente para a agricultura familiar.
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* Cristina Tordin - Jornalista
Nucleo de Comunicação Organizacional - NCO
Embrapa Meio Ambiente
Jaguariúna/SP (19) 3311-2608
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