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9 de abril de 2014

A Invasão da Paz – Rosa Pena

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A invasão da paz

 ……         …..   ……..  
                           Rosa Pena

A água é pouca. Tem que cavar poço e dessalinizar. Peixe é muito.
Uma areia imensa. A vazante faz com que a água fique represada nos recifes. Eles chamam o fenômeno de “maré morta”. Sobram conchas, muitas, um sem fim delas. Lindas de doer.

Conheci Nazi catando-as. Eu caminhava pela praia e pegava algumas para minha neta.
Ela ofereceu-me um monte e depois caminhou comigo até a porta de sua casa. Aberta para todos a qualquer hora, mesmo sem ninguém a tomar conta. Lá não se fecha porta, nem se grita. Será que foi inspiração para o paraíso?

Encontrei uma infinidade de trabalhos maravilhosos de outros artesãos do lugar e muitos feitos pela minha nova amiga, com escamas de peixe e conchas. Ainda que não fossem lindos, seriam pelo momento, mas eram realmente de uma beleza extraordinária. Abençoados.
Sem precisar provar nada a ninguém me convidou para entrar e me deu mangas tiradas do pé naquele instante junto com a paz do silêncio (eu sempre quis o silêncio das línguas que nada têm a dizer).

Mostrou-me com sua serenidade o encanto que a vida tem, com pouco no bolso e muito na alma. Fui à casa de Nazi todos os dias em que estive em São Miguel dos Milagres.

No último dia pedi uma foto e ela me ofereceu um pente que emprestava a todas que ali passavam.

O pente limpinho. Meu coração também.

www.rosapena.com

eles vivem em paz


vazante


fotos por Rosa Pena

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ÁGUA - QUEM PENSA, CUIDA!

22 de abril de 2013

Agora faz!!! – Rosa Pena


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Agora faz!!!
                    Rosa Pena –Rio de Janeiro, RJ
— Agora faz outra!
Ouço a voz da minha filha, falando com meu sobrinho-neto de dois aninhos e levanto os olhos da revista. Constato que Felipe havia acabado de matar uma joaninha.
Sorrio para Carol e mando um beijo para o céu, pois afinal papai está lá, assistindo a tudo de camarote.
Volta à minha memória a minha infância. Não sei exatamente com que idade papai falou pela primeira vez: — Agora faz outro (a)! Ah, mas lembro com exatidão quando me explicou o porquê da frase.
Estava com sete anos e brincava na varanda de casa. Uma carreira de formigas formou-se em volta de um papel de bala que deixei ali. Peguei minha sandália e matei as formigas com vontade. Papai que assistia disse:
— Minha filha, creio que ainda não entendeu quando digo “agora faz outra”. Destruir a obra alheia é fácil, construir outra igual é impossível. Você pode conseguir algo similar ao original, mas nunca será idêntica, ainda mais obras da natureza, que apenas Ele conseguiu realizar. Quando você pisa numa formiga, você destrói parte da obra Dele, e quando lhe mando fazer outra é para mostrar tua impotência diante Dele. Rios e mares poluídos, florestas devastadas. Ah! Que dó desse mundo descompassado. Isto minha Rosa, não se aplica apenas a obras divinas. Busque ver a parte bela de cada coisa e repare que não foi feita à toa. E mais, olhe com atenção, pois tudo muda, passa rápido e não tem volta.
A partir desta explicação, virei naturalmente uma defensora do meio ambiente. No decorrer da vida incorporei este pensamento à minha filosofia de vida. Não sei se sou extremamente condescendente com a obra alheia, mas quando leio um poema, olho um quadro, ouço uma música, vejo um filme, busco sentir o momento de criação do autor. Procuro um pouco de sua alma, na certeza de que não fez em vão.
Sempre que vejo alguém desfazer sumariamente de uma obra, penso na pisada da formiga. A pergunta martela em meus ouvidos… Será que este crítico feroz consegue fazer igual?
Certamente que não. Pode fazer até melhor, dentro da concepção dele, mas igual nunca.
Apenas matou o momento de brilho do criador, momento que não volta.
Minha filha tenta explicar ao Felipe. Ele ainda não entende, ainda pisará em muitas formigas, mas ela já plantou a semente.
Olho com orgulho para ela e constato que a minha germinou. Está linda, coberta de botões.
Tenho certeza de que florescerá.
Levanto e vou buscar o cd do Lulu Santos. Sinto necessidade de ouvir com papai “Como uma onda no mar”.
_____________
2003 – LIVRO PreTextos/rosapena   www.rosapena.com
Foto de Maria de Fátima Barreto Michels – Laguna, SC.

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19 de setembro de 2012

Agora faz!!! – Rosa Pena (Cantinho Literário – II Semana da Mata Ciliar SOSRiosBr (VII)


Agora faz!!!
                        Rosa Pena – Rio de Janeiro, RJ
— Agora faz outra!
Ouço a voz da minha filha, falando com meu sobrinho-neto de dois aninhos e levanto
os olhos da revista. Constato que Felipe havia acabado de matar uma joaninha.
Sorrio para Carol e mando um beijo para o céu, pois afinal papai está lá, assistindo a
tudo de camarote.
Volta à minha memória a minha infância. Não sei exatamente com que idade papai
falou pela primeira vez:
— Agora faz outro (a)!
Ah, mas lembro com exatidão quando me explicou o porquê da frase.
Estava com sete anos e brincava na varanda de casa. Uma carreira de formigas
formou-se em volta de um papel de bala que deixei ali. Peguei minha sandália e matei
as formigas com vontade. Papai que assistia disse:
— Minha filha, creio que ainda não entendeu quando digo “agora faz outra”. Destruir a
obra alheia é fácil, construir outra igual é impossível. Você pode conseguir algo similar
ao original, mas nunca será idêntica, ainda mais obras da natureza, que apenas Ele
conseguiu realizar. Quando você pisa numa formiga, você destrói parte da obra Dele,
e quando lhe mando fazer outra é para mostrar tua impotência diante Dele. Rios e
mares poluídos, florestas devastadas. Ah! Que dó desse mundo descompassado. Isto
minha Rosa, não se aplica apenas a obras divinas. Busque ver a parte bela de cada
coisa e repare que não foi feita à toa. E mais, olhe com atenção, pois tudo muda,
passa rápido e não tem volta.
A partir desta explicação, virei naturalmente uma defensora do meio ambiente. No
decorrer da vida incorporei este pensamento à minha filosofia de vida. Não sei se sou
extremamente condescendente com a obra alheia, mas quando leio um poema, olho
um quadro, ouço uma música, vejo um filme, busco sentir o momento de criação do
autor. Procuro um pouco de sua alma, na certeza de que não fez em vão.
Sempre que vejo alguém desfazer sumariamente de uma obra, penso na pisada da
formiga. A pergunta martela em meus ouvidos… Será que este crítico feroz consegue
fazer igual?
Certamente que não. Pode fazer até melhor, dentro da concepção dele, mas igual
nunca. Apenas matou o momento de brilho do criador, momento que não volta.
Minha filha tenta explicar ao Felipe. Ele ainda não entende, ainda pisará em muitas
formigas, mas ela já plantou a semente.
Olho com orgulho para ela e constato que a minha árvore germinou. Está linda,
coberta de botões.Tenho certeza de que florescerá plena.
Levanto e vou buscar o cd do Lulu Santos. Sinto necessidade de ouvir com papai
“Como uma onda no mar”.
_________________
2003
LIVRO PreTextos/http://www.rosapena.com/

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26 de fevereiro de 2012

Sol sem filtro solar – Rosa Pena



Sol sem filtro solar
                                   Rosa Pena –  Rio de Janeiro, RJ
Tenho tido tantos sentimentos contraditórios, uma miscelânea do pouco que ainda sonho com excesso de melancolia. Inúmeras lembranças para míseros projetos. Meu carioquês está em desuso, aliás, eu estou démodé. Sou um déjà vu ambulante. Outro dia falei retrato em vez de foto. Quase fui em cana. Mania que tenho de dizer o que vem na cabeça sem elaborar, delírio de projetar minhas recordações muito fora do alcance de quem me ouve. Mas alguém ainda escuta alguém?
O pretérito! Agora sempre imperfeito, cavalo capenga que já foi vencedor em tantos páreos! Passado teimoso que troteia em suas patas mancas e insistentemente ama o espelho, que adora nos mostrar a cada dia mais rugas. Porém, alguém do planeta dos macacos eunucos, alardeia que devemos sorrir felizes! Estamos ingressando na melhor idade (Certamente quem veio de lá foi o Lair Ribeiro que vendeu milhões de livros “Como Envelhecer sem ficar velho”). Lair! Quebra um galho. Cria como se emburacar no chocolate sem engordar! Comer comer é o melhor para poder crescer… Para os lados!
Ok! Grito para o escravo de Narciso! Sei que já estou quase alforriada para ser imprópria, gulosa, sem limites desde o carrinho de feira passando pelos pés dos outros até a boca que chama som de toca discos. Que blasfêmia chamar CD de disco! A juventude acha a velhice um porre, mas fica bonitinho sorrir das senilidades que o pessoal da idade feliz pratica (será que pratica?).
A memória brinca de esconde-esconde e quando aparece é para nos lembrar que agora o uísque é só uma gotinha no imenso copo de guaraná, o cuba não é mais libre, a água mineral é sem gás para evitar flatulência, a empada é de rúcula, o bolo light, Porcão Rio’s é para você pagar no seu aniversário e enquanto genros, primos, sobrinhos e coadjuvantes enchem o fiofó de carne, lingüiça, você saboreia uma couve-flor. Caso seu comportamento seja considerado exemplar abre-se uma exceção. Meio Petit Gateau de sobremesa para cantar os parabéns! A comemoração de um tempo que já foi bonito e, a cada minuto, fica mais ridículo dizer “muitos anos de vida”. Não quero mais festas de aniversário, pois eu nasci há dez mil anos e naquela época o Raulzito não deixou registrado nenhum tipo de comemoração, que dirá em churrascarias!
O que eu ainda desejo?
Meu cabelo com cheiro de mar, biscoito globo, ter notícias de Eduardo e Mônica, ouvir Creedence Clearwater Revival numa Honda 500, beijar muito na boca, e o retorno da magia para que eu consiga engolir a sacanagem que fizeram com astro rei, logo a água ferrou-se, a Terra passou a tremer mais, Sodoma ressurgiu em Tatis boladonas, “Eguinhas Pocotós", um grupo de Judas vira, anualmente, Cristos no BBBial, torcedores matam até na vitória do seu time. Urge que caia sobre mim muita complacência (bota tolerância, benevolência, condescendência e todos os sinônimos) para aturar aqueles que nada sabem, mas se acham os fodões. Não imaginem que estou deprimida, que quero colo, consolo e etc. Faço o que me apetece e rever meu passado é saboroso. Esgotou-se a convivência com esses professores de existência, peritos em celular, games, MSN, carros, mas sem noção que Oslo é capital da Noruega, Paris é cidade Luz, Mary Streep é uma atriz fenomenal, Woody Allen um diretor à frente de seu tempo…
Estou chata, excesso de saudosismo enjoa, mas estou me lixando, pois não preciso mais que apostem fichas em mim. Já estou fora do páreo. O que eu ainda desejo mais que beijo na boca?
A esperança - certeza de que muita água boa jorrará na Terra, a primavera florirá loucamente, o rei do sistema voltará a ser amigo dos humanos.
O máximo?
Idealizar minha neta andando pela estrada do sol sem filtro solar!

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