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13 de maio de 2011

GOVERNO BRASILEIRO AUTORIZA PESCA DE ATUM, COM ISENÇÃO FISCAL, NO NOSSO LITORAL





O Japão, os peixes e as previsões‏



Apenas para que se tenha uma idéia, o Brasil, que está longe de ser um dos grandes produtores de pesca no mundo, publicou, por meio do Ministério da Pesca e Aquicultura,edital que permite que embarcações estrangeiras atuem em águas brasileiras, com isenção fiscal, para explorarem o atum em nosso litoral.

Leandra Gonçalves, Bióloga, 
coordenadora de Campanhas do Greenpeace-Brasil

A sequência de desastres naturais acompanhados do caos nuclear que abalaram o Japão no início de março vai influenciar radicalmente o modo como o país irá se comportar daqui por diante na questão da caça de baleias e da pesca. O tsunami afetou seriamente a indústria pesqueira japonesa, com a ampla destruição da sua frota de barcos e portos. A tragédia terminará por acelerar um processo que já se encontrava em curso graças à diminuição dos estoques de pesca no país - a transferência para outros países da tarefa de realizar em suas águas a captura dos peixes que serão consumidos pelos japoneses.
 
O Japão produz aproximadamente 4.2 milhões de toneladas de pescado por ano, o que corresponde, de acordo com os dados da FAO, agência da ONU para alimentação, a aproximadamente 8% da pesca feita no mundo, em uma indústria que movimenta 16 bilhões de dólares anuais e é responsável pela geração de 212 mil empregos no país. É o quinto maior em volume de pesca, atrás de China, Peru, Indonésia e Estados Unidos. Por ser o maior consumidor de peixe do mundo, o Japão acaba sendo também o maior importador.
Este quadro, agravado em razão do tsunami, toma proporções dramáticas com a contaminação dos peixes decorrentes do vazamento de radiação e da água contaminada, usada no resfriamento dos reatores da usina, jogada nos mares, o que tornará inadiável o processo de aceleração da terceirização da pesca japonesa para outros países. 
 
Podemos prever que, além do aumento inevitável do preço do peixe em razão da paralisia na produção japonesa e da necessidade de que outros países supram essa demanda, o alto consumo japonês representará nova ameaça sobre os já super-explorados recursos pesqueiros mundiais.
Apesar de feita sob o patrocínio do Japão, essa terceirização diluirá a responsabilidade do governo japonês pela exploração desmedida dos recursos pesqueiros. Apenas para que se tenha uma idéia, o Brasil, que está longe de ser um dos grandes produtores de pesca no mundo, publicou, por meio do Ministério da Pesca e Aquicultura, edital que permite que embarcações estrangeiras atuem em águas brasileiras, com isenção fiscal, para explorarem o atum em nosso litoral. 
 
O Japão conta com recursos na ordem de 1,6 trilhões de dólares em sua poupança interna, 30% do seu PIB, uma das mais altas taxas do mundo, para recuperar o país. Em nosso exercício de futurologia, acreditamos que o país certamente priorizará áreas da economia que são vitais para o esforço de exportação, como é o caso da indústria de alta tecnologia. Em um primeiro momento, isto logicamente não incluirá a indústria da pesca, que já não supria sequer as necessidades de consumo do país.
Por conta disso tudo, é ainda possível imaginar que o Japão se afastará da caça da baleia -indústria que já vinha em processo de decadência - e os esforços do país estarão voltados para a reconstrução e não haverá tempo, muito menos barcos disponíveis, para ir buscar nas águas geladas e distantes da Antártica o orgulho que o país precisa reencontrar dentro da sua própria casa.
 
É claro que boa parte disto é uma previsão. Mas previsões são fundamentais para planejarmos o futuro. Balzac já dizia que não há nada mais infalível do que um profeta mudo.

Ricardo Baitelo
Coordenador da Campanha de Energias Renováveis - Greenpeace Brasil
Energy Campaigner Greenpeace Brazil


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